sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

(Fascículo 14)











fig 7 - A Nau pousada na água


O castelo da popa era mesmo sumptuoso, desenvolvendo-se por três cobertas. Entalhado por mão segura e hábil de artista virtuoso, mostrava-se no painel posterior o escudo Nacional - imperioso e imperial - talha rica nos pormenores, sobreposta aos varandins dos aposentos da Oficialidade suspensos sobre o mar, onde em dias de calmaria se poderiam, certamente, embebedar os olhos de visões oníricas longínquas, perdidas na imensidão do mar. Tudo resplandecia em grandeza esplêndida.



fig 8 - O castelo da popa

Diria quem teve acesso ao seu interior, que os Salões eram ainda mais deslumbrantes, soberbos nos lustres artisticamente pendurados do tecto ou suspensos nas divisórias cuidadosamente envernizadas, cortinados de damasco, como apenas se nunca se vira em palácio Real.Escadaria com balaústres cuidadosamente torneados em pau santo acetinado, sobre os quais repousava corrimão para doce amparo no acesso à cabina capitania.

Tectos ricamente almofadados com talha dourada eram suportados por colunas de sustentação escondidas por folhas de parra, entalhadas, de





fig 9 - O interior sumptuoso da Nau


onde ressaíam cacheiras prenhes de redondos bagos. Tudo executado à goiva sobre o avermelhado e lustroso pau Brasil, num manancial de beleza prodigiosa, profusamente semeada com requinte de minúcia por artista pródigo, no rigor e na perfeição.
Entrada na água, a Nau fendeu-a com soberana elegância, parecendo sentir a carícia da sua frescura correr-lhe por sob as formas redondas das suas obras vivas. O deslize foi tão perfeito que mais pareceu não mergulhar nas suas profundezas, mas sim, pairar ao de leve pousada sobre a sua superfície. Até que, esgotada a inércia, altiva e elegante, soberana, parou. Posta em bom enquadramento para fotografia destinada a álbum para a história, momento avidamente aproveitado por atentos caçadores de imagens para seu registo, para a posteridade. Para lá de histórico, seria único! Porque momento de apanhar a Nau em tão garbosa postura, na sua assombrosa realeza, iria apagar-se num breve minuto, mesmo antes de esvaídos os clarões dos primeiros flashs das máquinas de fotografar. Iria ser breve, fugaz... e irrepetível.

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